O significado do manto da nossa Mãe

16 de outubro de 2021 às 11:26 AM

(Foto: Fiorella Bagatello, via cathopic.com)

Qual a relação do manto de Maria com a nossa vida?

 

Vejamos a reflexão de Dom Antônio de Assis Ribeiro, bispo auxiliar de Belém/PA, sobre o manto da Mãe de Deus:

 

Diante da importância que damos ao manto de Nossa Senhora, somos chamados a aprofundar o seu significado e a refletir sobre o que isso tem a ver com a nossa vida, o que essa realidade representa, para onde esse ícone nos aponta.

 

O manto não é um traje qualquer, não é uma simples roupa!

Os significados do manto na Bíblia

Na Bíblia aparecem mais de cem vezes os termos “manto”, “mantos” e “capa”. Vejamos algumas referências:

 

⇒ O manto serve para cobrir a nudez (cf. Gn 9,20-23); representa algo essencial para a proteção da pessoa e, por isso, deve ser preservado, devolvido (cf. Ex 22,25-26); representa algo relacionado à intimidade da pessoa!

⇒ O manto é peça importante do traje sacerdotal para poder servir com dignidade (cf. Ex 28,1-5.31-35); representa o decoro moral no ato de servir a Deus e aos irmãos!

⇒ O manto é um objeto precioso produzido com atenção, esforço, carinho, dedicação artística (cf. Ex 39,22-26); representa um conjunto de conquistas precedidas de muito esforço pessoal!

⇒ É uma realidade que acusa solenidade e chama a atenção. Assim disse Noemi à pobre e solitária Rute que desejava conquistar a benevolência de Booz: “Faça o seguinte: tome banho, perfume-se, vista seu manto e vá ao terreiro” (Rt 3,1-4); o manto nos traz visibilidade, atrai a simpatia dos outros! São as nossas virtudes!

⇒ O manto de Rute também lhe serviu para transportar o alimento que Booz lhe deu: “Booz então lhe disse: «Abra o manto e o segure». Rute segurou o manto e Booz o encheu com uns vinte quilos de cevada” (Rt 3,15); o manto traz consigo um conteúdo, representa a abertura, a capacidade de acolher e receber!

⇒ O manto foi o alvo de vingança e violência por parte do Rei Saul contra o profeta Samuel. Saul não aceitou ser denunciado por violência e, então, rasgou o manto do profeta e sacerdote Samuel (cf. 1Sam 15,24-30); o manto representa a honra da pessoa!
⇒ O manto de Elias tinha poder transformador (cf. 2Reis,8); o manto representa a força das virtudes capaz de gerar mudanças, transformação onde vivemos!

⇒ Elias, após seu ministério profético, compartilhou o seu manto com Eliseu (cf. 1Reis 19,13-19); o manto é carisma, conjunto de valores e virtudes que podem ser imitadas! Por isso, pensando no manto de Maria não podemos esquecer as suas virtudes! Não devemos nos fixar no manto físico, mas olhar para a pessoa de Maria!

⇒ Na visão vocacional do profeta Isaías, a barra do manto de Deus enchia o templo (cf. Is 6,1); o manto nos remete a uma realidade transcendente… pois os dons vem de Deus e nós somos templos do Espírito Santo (cf. 2Cor 6,16; 1Cor 8,10);

⇒ Ser vestido com um manto vermelho era sinal de grande honraria, reconhecimento de méritos (cf. Dn 5,7-29); mas quando os malfeitores vestiram Jesus com um manto vermelho, estavam debochando dele porque não tinham fé e o rejeitaram (cf. Mt 27,28); ser portador de um manto ensanguentado, ou embebido no sangue, significa ser martirizado (cf. Ap 19,13);

⇒ Rasgar o próprio manto significa uma atitude de profunda indignação, como aconteceu com o sacerdote Esdras ao saber da profanação do templo: “Ao receber essa notícia, rasguei as roupas e o manto, arranquei os cabelos da cabeça e da barba e me sentei desolado” (Esd 9,3); é indignação diante do mal, é não compactuar com a injustiça!

⇒ O Messias é portador do manto da justiça e libertação, porque está a serviço da Salvação (cf. Is 61.1-11): “Vibro de alegria no Senhor, meu Deus, porque ele me vestiu com a Salvação e cobriu-me com o manto da justiça” (Is 61,10);

⇒ “Jesus tirou o manto e se pôs a servir aos seus discípulos” (Jo 13,4); tirar o manto significa sinal de humildade, simplicidade, despojamento de status (orgulho), descer do pedestal para poder servir com generosidade.

 

Como está o seu manto?

Em resumo, o manto significa personalidade, conjunto de valores, caráter virtuoso, boa moralidade, nobreza, dignidade, espiritualidade, carisma, consciência ética, compromisso de serviço, promoção da justiça… O que mais nos enobrece não é a beleza física, mas são as virtudes que qualificam comportamento. A pessoa mais bonita é aquela portadora de mais virtudes! Há pessoas fisicamente feias por fora, mas lindas por dentro, assim como há pessoas bonitas fisicamente que são moralmente horríveis!

 

Estimulado pelo manto de Maria, manto imaculado, somos chamados a nos questionar sobre como está o nosso manto: Como está o seu manto, o seu caráter, o conjunto das suas virtudes? Quais são as virtudes que mais contribuem para o brilho do seu manto? Como se apresenta o seu manto moral? Abandonado, esquecido, empoeirado, sujo, desbotado, manchado, rasgado…?

 

Este local fica próximo ao Santuário Original de Schoenstatt, onde as pessoas deixam placas e vela de gratidão à Mãe e Rainha (Foto: Ir. M. Nilza P. da Silva)

 

Manto e santidade

O nosso verdadeiro manto não é feito de pano, nem enfeitado de purpurina, miçangas, muito menos costurado com fios de ouro… O nosso manto é constituído pelas virtudes que cultivamos. Todos nós, movidos pela fé, ao longo da nossa vida, devemos tecer e bordar o nosso manto espiritual que é a santidade, o nosso manto moral que é o bom caráter com seu conjunto de valores, virtudes e atitudes!

 

Sim, somos chamados a admirar as artes humanas… mas a mais nobre das artes, que não devemos esquecer, é arte do Espírito de Deus que, com a nossa colaboração, molda a nossa mente, santifica a nossa vontade, dá autenticidade à nossa liberdade… Essa é arte da conversão! Em parceria com o Espírito Santo nos tornamos artesãos da nossa santidade a partir das virtudes que cultivamos.

 

Caríssimos irmãos e irmãs, ninguém deve estar fora do ateliê da Santidade. Na Carta Apostólica sobre a santidade (Gaudete et Exsultate), o Papa Francisco afirma que é a partir da nossa humanidade vulnerável que Deus molda a sua obra de arte (cf. N. 61).

 

Tudo isso é possível quando realizamos o que Deus pediu a Abraão: «ande na minha presença e seja perfeito» (Gn 17,1). E Jesus explicita essa meta convidando-nos a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Ele amou. Sem a prática do amor, estamos moralmente nus e espiritualmente vazios!

 

É por isso que São Pedro nos convida a colocar virtudes na nossa fé: “façam esforço para pôr mais virtude na fé, mais conhecimento na virtude, mais autodomínio no conhecimento, mais perseverança no autodomínio, mais piedade na perseverança, mais fraternidade na piedade e mais amor na fraternidade” (2Pd 1,5-7).

 

O nosso manto moral, tantas vezes, é bordado em meio a duros esforços, sofrimento, paciência, luta e lágrimas. Mas é dessa forma que podemos fazer a experiência da serenidade, da sensibilidade fraterna, da honestidade, da autenticidade, do perdão, do serviço, da comunhão, da obediência, da tolerância, da misericórdia, da justiça, da alegria, da paz, do autodomínio, da liberdade autêntica… Como está o seu manto de virtudes? Não nos preocupemos excessivamente com o manto da imagem, mas imitemos o manto de Maria.

 

O manto de Maria é um convite para que tenhamos uma fé virtuosa como foi a vida de Maria de Nazaré! Qual poderiam ser os elementos do manto do bom católico? Que conheça e ame a Jesus Cristo, que ame a Palavra de Deus, que tenha um profundo sentido de pertença à Igreja e nela esteja engajado, que seja missionário, que lute pelo Reino de Deus, que seja capaz de ser solidário, que seja uma pessoa de comunhão (sinodalidade), capaz de cumprir com honestidade os seus deveres de honesto cidadão… Caríssimos irmãos e irmãs, olhemos para a vida de Maria de Nazaré e cuidemos do nosso manto!

 

 

Fonte: schoenstatt.org.br

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